"Minha vida não será mais como era. Houve uma conversão", diz dono de uma corretora de café no Espírito Santo

"Minha vida não será mais como era. Houve uma conversão"

Dono de corretora de café no Estado, Gerson Coser revê sua vida após ter perdido uma das pernas. Ele caçava na fronteira do Brasil com a Bolívia, no mês passado, quando foi atingido por tiro

Claudia Feliz
cfeliz@redegazeta.com.br

foto: Álbum de família
Caçada feita por Gerson Coser em Moçambique - Editoria Cidades - Foto: Álbum de família
Caçada feita por Gerson Coser em Moçambique

Empresário bem-sucedido do mercado de café, com uma bela família, Gerson Coser olhou a vida sob um ângulo diferente ao longo dos seus 52 anos. Não nega que durante grande parte desse tempo foi muito materialista e egoísta. Além de trabalhar demais para ganhar dinheiro, fazer caçadas – todas dentro da lei, como faz questão de frisar – foi uma de suas fontes de prazer, que o levaram a realizar várias viagens internacionais: Bolívia, Argentina, Estados Unidos, Namíbia, África do Sul, Moçambique, Zimbábue, Botsuana e Zâmbia fazem parte da lista das terras por onde Gerson passou abatendo animais de grande porte.
E foi na última caçada de búfalos, na fronteira do Brasil com a Bolívia, que ele passou pela experiência que o faz agora ver o mundo sob um novo prisma. Atingido por um tiro de fuzil no joelho, Gerson perdeu uma das pernas. Vinte dias após a cirurgia, reaprendendo a andar, admite: "Foi uma forma de arrebatamento, dessas que Deus faz para a gente mudar. Alguém me disse que só se conhece Deus quando se fica humilde e se livra do orgulho. Estou revendo minha vida. Já não quero mais só pensar em trabalhar e ganhar dinheiro. A simples acumulação de riqueza não mais me seduz." Nesta reportagem, Gerson Coser conta, com suas próprias palavras, o drama de ter visto a morte de perto.

foto: Álbum de família
Caçada feita por Gerson Coser em Moçambique - Editoria Cidades - Foto: Álbum de família
Recomeço
Em seu apartamento na Praia de Camburi, em Vitória, Gerson Coser recupera-se da cirurgia

"Na quinta-feira após o carnaval, um carnaval especialmente tranquilo, embarquei para mais uma das minhas aventuras, que por algumas vezes quase me custaram a vida, mas sempre saindo praticamente ileso, acreditando que era sorte ou tinha um anjo da guarda me dando assistência 24 horas. Fomos à procura de búfalos num país vizinho ao Brasil, onde um amigo mantém o controle e a segurança da área. Contávamos apenas com o meu rifle.

Chegamos à cidadezinha de fronteira, na Bolívia. Andamos dez horas de barco a motor até as margens de pantanais, onde teríamos que avançar por dez horas com canoas de madeira. A região, alagada, nos forçava a comer, fazer necessidades, etc. de cima das canoas, além de um barco de alumínio sem motor. Dormiríamos em redes armadas um metro acima dágua.

Os experientes índios que nos aguardavam remaram forte até o local, nos agradando de forma muito humilde, em agradecimento por nós os livrarmos das feras introduzidas pelo homem e que ali se multiplicam de forma indiscriminada. Dois enormes touros, em especial, aterrorizavam a região, já tendo ferido e atrapalhando a pesca naquela área. Após um lanche, saímos à procura dos bichos. Desde que eu fora atacado e machucado por um desses animais em Rondônia, dez ou 12 anos atrás, me especializei na caça deles, treinando muito com meu rifle .375 H&H."

foto: Álbum de família
Caçada feita por Gerson Coser em Moçambique - Editoria Cidades - Foto: Álbum de família
Em Moçambique, Gerson  (à direita, armado) exibe um antílope abatido

O abate

"Umas duas horas depois, com braços e pernas bastante queimados e ardendo forte devido ao sol causticante, finalmente topei com as feras. Eu, meu amigo Gabetto e dois índios nos encontramos de frente com o bicho. Caprichei no tiro como pude, já que a canoa balançava muito, estava com apenas 30cm de água, e o búfalo se encontrava com água batendo acima das canelas.

Com o disparo, o animal caiu, tentando procurar forças para escapar ou atacar. Coloquei mais três tiros na sua traseira, mas ele continuava avançando, tendo que levar mais dois na lateral, tudo isso com ele acobertado pelo mato.

Das seis balas calibre 12 knock down que eu achava suficientes para aguentar carga se o bicho encostasse na canoa, uma entrou no couro pela costela, correndo intacta por uns 10cm. Outra bateu no chifre e caiu, e uma terceira atingiu o pescoço e tambem caiu no chão sem conseguir furar a musculatura do animal.

Fiquei vigiando o outro búfalo para não acontecer o mesmo que da outra vez, há dez anos. Enquanto abatíamos um, o outro me atacou e me quebrou todo. (Gerson refere-se a outra caçada, realizada em Rondônia).

Resolvemos deixar o bicho numa canoa ali mesmo e seguir até o acampamento, já que estava escurecendo e começava a chover torrencialmente. Após uns percalços, chegamos bem tarde, armamos as redes de selva e desabamos até o amanhecer."

Pressentimento

"O dia seguinte amanheceu pesado e cinzento, e assim eu também estava. Um pressentimento estranho me acompanhava. Não sentia nenhuma satisfação pelo enorme troféu abatido.

Calminha aí, antes de os entendidos de direitos dos animais se indignarem. Devo dizer que sou caçador legalizado há 34 anos e tenho licença para caçar em diversos países legalmente. E essa poderei intitular como a minha última caçada!

Quem vive nas cidades e tem pouco ou nenhum contato com as feras que andam soltas no mato costuma, de forma egoísta, condenar quem, por um motivo ou outro, gosta da atividade.

Nós somos primatas violentos e carnívoros, como todos os outros. A caça é que permitiu que aquelas pequenas tribos de hominídeos evoluíssem e colonizassem o planeta a partir da África. Muitas tribos em várias partes do mundo sobrevivem até hoje da caça.

Alguns seres humanos acham que evoluíram para abominar a caça, apesar de comerem sangrentos churrascos e filés. Eu não sou hipócrita, gosto da caça e de me alimentar de sua carne.

Bem, voltando ao ocorrido, acordamos e fomos em duas canoas carnear o bicho. Lá pelas 3 da tarde, chuva caindo, retornamos ao acampamento. Quando nos aproximamos fomos colocar uma roupa seca para irmos atrás do outro."

Tiro certeiro

"Eu estava agachado, Josemar em pé, atrás de mim, dentro do barco. De repente, escutei uma pancada no joelho e soube na hora que foi um tiro de fuzil que tinha entrado e cortado a artéria do meu joelho, vazado e cortado a panturrilha de Josemar, que ainda não tinha sentido o impacto.

O sangue borbulhou no meu joelho, e pedi um garrote para parar o sangramento, imediatamente. Quando cortaram minha calça, fizeram o garrote e me enrolaram numa lona de carne – e tambem ao meu amigo –, agora gemendo de dor, eu já estava no túnel de luz com sensação maravilhosa de conforto. Novamente tive a visão de seres familiares, como da outra vez que o búfalo me atacou em Rondônia.

Acordei com frio e chuva na cara. Já acomodado, perguntei aos caras, que já haviam remado as dez horas iniciais até chegarmos aos barcos a motor no rio.

Pedi a Deus e fui agraciado com outro choque, inconsciência e sensação de paz. Acordei algum tempo depois com muito frio, dor, chuva no rosto e água podre nas costas, quando o barco balançava.

Umas cinco horas depois, já tinha falado aos companheiros: ‘Não se esforcem tanto, já estou morto’. Gabetto acordou do choque perguntando onde estava. Comecei a ter falta de oxigênio e entrei num estado cataléptico."

"Deus, me leve"

"A dor era insuportável, pois o joelho estava destroçado. Comecei a pedir a Deus que me levasse, pois não aguentaria nem um minuto, quanto mais tantas horas de sofrimento.

Foi quando um ser que acredito ser Jesus ou um anjo enviado segurou na minha mão e falou: ‘Você vai ter de aguentar todo esse sofrimento porque sua família te ama demais e precisa muito de você. Sua missão aqui ainda não acabou. Mas o pé você vai perder’.

Com esse e outros diálogos que tive com esse ser, minha vida hoje não será mais como era. Houve uma conversão, uma espiritualidade se manifestou. Depois vou contar sobre isso, após ter encontros religiosos e ser mais esclarecido sobre o assunto.

Bem, depois de dez horas de canoa, mais 11 de barco, chegamos a uma fazenda que tinha telefone. Chamaram a ambulância, que demorou umas horas para chegar, mais outro tanto para chegar ao carente posto hospitalar no vilarejo próximo. Um remédio para dor que pouco adiantou – há horas já tocava os dedos e não os sentia, pois estavam comprometidos."

No hospital

"Conseguimos uma ambulância para uma cidade com recursos, a sete horas dali. Partimos naquele quebra-ossos gritando até o hospital, onde fomos atendidos. Só então liguei para minha mulher, Donatella, que imediatamente acionou meu pai e irmãos, comprou a passagem e partiu para lá com meu filho Pedro. Eu, meio sedado, soube que chegariam à 1h da manhã.

O excelente – mesmo – médico vascular que me atendeu falou que eu só teria 12 horas antes de se instalar uma septicemia. Assim, autorizamos a cirurgia, sempre acompanhados pelos médicos da família, por aqui. A vascularização só funcionou em partes do pé –, outras já estavam comprometidas.

Acordei da cirurgia com os rostos amados de Pedro e Donatella, suas mãos em volta das minhas. Já tinha falado com minha filha, que precisou ficar aqui, desconsolada."

Enterro do pé

"O médico pediu a um dos dois para ver a dissecação, exames e condições do pé até o joelho. Pedro assistiu aos procedimentos e ainda teve que ir à funerária – nem sabia que tínhamos que enterrar pé, fazer atestado parcial de óbito. Tinha falado para o médico cortar e jogar fora ou cremar, pois estava me incomodando muito – e ainda está, com a terrível dor fantasma.

Bem, depois de um dia e tendo melhorado, me colocaram junto com Donatella num jatinho UTI e, em 3h20, estava em minha amada cidade.

Dali para o apartamento do hospital, os cuidados do meu cunhado Claudio, do nosso amigo de longa data João Luís Sandri, do doutor João Batista Bonesi Rodrigues e do restante da excelente equipe de médicos e enfermeiras. Lá assisti à melhora da mãe de Michel Minassa, amigo de infância, e, infelizmente, o falecimento da querida Sônia Cabral.

Conselhos que posso passar? Tenha um excelente kit de primeiros-socorros no carro. Ele pode salvar sua vida, principalmente em lugares remotos. Muito cuidado ao dirigir e manusear armas. Considero as duas atividades radicais.

Deus existe e tem um plano para cada um de nós. Quem parte com a vida limpa parte para um lugar melhor...

Peço desculpas à minha família por ter feito com que sofresse tanto. Estou e não consigo parar de ficar emocionado com meus pais, irmãos e tios. A união da família Coser foi muito grande, mas abraçar de novo meus irmãos não tem preço."

Fonte: Jornal A Gazeta (Vitória-ES) e Gazeta Online

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