Evangélicos no Espírito Santo falam sobre homossexualidade em reportagem especial de A Gazeta


O Jornal A Gazeta deste domingo trás uma reportagem especial sobre opiniões de evangélicos capixabas contra a homossexualidade. Veja:

Homossexualidade: evangélicos querem direito de discordar.
Eles desejam expressar suas crenças sem recriminação.

O casal Flávia Vaz, 36, e Mário Vaz Júnior, 39, são evangélicos da Igreja Missão Praia da Costa, em Vila Velha. Eles educam seus três filhos a partir dos preceitos bíblicos repassados por seus pais e que contemplam valores de uma família tradicional. Neles não está incluída a aceitação da homossexualidade, tema de muitos debates em todo o país.

Foto: Bernardo Coutinho
Bernardo Coutinho
Flávia Vaz e o cirurgião pediátrico Mário Vaz Júnior


Valores que o casal Flávia, que é psicóloga, e Mário, cirurgião pediátrico, assim como milhares de outros evangélicos no Brasil, querem defender. E mais, querem ter o direito de expressar suas crenças sem nenhuma recriminação. Pregam o respeito, mas também não querem ser perseguidos por discordarem do casamento gay e das alterações na legislação para a criminalização da homofobia.

Atualmente, em ânimos para lá de exaltados, deputados e senadores discutem projetos de lei que visam a ampliar os direitos dos homossexuais, com forte oposição dos evangélicos. Declarações bombásticas do pastor Silas Malafaia e do deputado e pastor Marco Feliciano, presidente da 
Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acrescentam pólvora aos debates cada vez mais acalorados e artistas assumem a bandeira e divulgam publicamente sua orientação sexual – a exemplo da cantora baiana Daniela Mercury que trocou alianças com uma mulher na última semana. 

Para fiéis e pastores, existe hoje, no país, uma tentativa de impor uma “ditadura homossexual”.
Para o pastor da Igreja Presbiteriana Praia de Itapoã, Jean Freitas, querer qualificar de retrógrada a opinião contrária só prejudica o debate e é um meio de tentar desqualificar qualquer pensamento contrário. “Em um estado democrático de direito, qualquer pessoa tem o direito assegurado na Constituição ao livre pensamento”, afirma. Ele acrescenta que as pessoas não apenas podem como devem se posicionar contra o casamento homossexual.

E Freitas vai mais longe: afirma que essa é uma postura que envolve a expressão da fé bíblica. A ideia de casamento, garante o pastor, só é possível entre um homem e uma mulher. “Não expressamos o que queremos, mas o que encontramos claramente na Bíblia. Dizer não ao casamento igualitário, como sugere o movimento gay, não é concordar com perseguição ou discriminação”, afirma.

Bíblia

Pastores e fiéis lançam mão dos próprios textos bíblicos para justificar suas posições e fazem críticas severas aos projetos que tramitam tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados. O pastor Antônio Carlos Gonçalves Affonso, da 2ª Igreja Batista em Cobilândia, cita o capítulo 1 da Bíblia, da epístola que o apóstolo Paulo escreve aos romanos, como uma das passagens do evangelho que consideram a homossexualidade um erro.

Segundo ele, a homossexualidade e a idolatria são descritos no capítulo como pontos máximos do pecado da humanidade, aos quais Deus desaprova. O pastor faz referência ao verso 27. “’E semelhantemente também os varões deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sexualidade uns para com os outros, cometendo torpeza, recebendo em si mesmos a recompensa que convinha com o seu erro’. O texto chama de erro. Essa é a posição bíblica”, diz o pastor Antônio Carlos, alertando que a “igreja precisa estar preparada para suportar até uma perseguição, que é o grande temor dos evangélicos”.


Foto: Gabriel Lordêllo
Gabriel Lordêllo
Lincoln de Paula Júnior e a esposa Priscila, 40, são líderes na Igreja Presbiteriana Praia de Itapoã, em Vila Velha


Membro da igreja Presbiteriana, o jovem Thiago Simões Lacerda, 24, formado em Direito e estudioso da Bíblia diz que a homossexualidade é pecado, e não deve ser confundida com crime, nem com doença.

“É pecado porque não cumpre o desígnio de Deus para a sexualidade, que é uma expressão física do casamento. E casamento é a companhia pactual entre homem e mulher. Compreendemos isso de vários textos bíblicos, a exemplo de Gênesis 1 e 2; Mateus 19; Romanos 1; 1 Coríntios 6; e Efésios 5. Nesses textos, vemos que homem e mulher são complementares”, justifica.

Thiago ressalta que Jesus não era condescendente com o pecado. “No Evangelho de João, Jesus disse à mulher adúltera ‘eu não te condeno’ e também ‘não peque mais’. O mesmo se aplica à homossexualidade”, pontua.

Direito de expressar opiniões

O casal Lincoln de Paula Júnior, 51 e Priscila, 40, são líderes na Igreja Presbiteriana Praia de Itapoã, em Vila Velha. Gerente de Informática, Lincoln diz que hoje há uma apologia à homossexualidade. “Sou contra qualquer tipo de preconceito, mas quero ter o direito de expressar minhas opiniões sem ser tachado de homofóbico”. Ele diz ainda que discordar de comportamentos que agridem suas crenças, é conflito de valores e não preconceito. “O projeto de criminalização da homofobia incentiva a discriminação aos heterossexuais. Valores estão sendo desconsiderados em nome de uma suposta liberdade de opção. É uma minoria querendo privilégios em cima da maioria, por isso não vejo espaço para dispositivo legal que trata como crime a discriminação de homossexuais”, ressalta.

Discordar não é discriminar

“Quero a liberdade de ser eu mesma. Não quero impor minha crença a ninguém, mas também não vou me calar”, diz Flávia Vaz, 36. A psicóloga, que é casada com o cirurgião pediátrico Mário Vaz Júnior, 39, diz que não quer ser rotulada como anormal e obsoleta por discordar da homossexualidade. “É um comportamento que surge a partir de experiências de vida, referências, aspectos hormonais, inclinações e escolhas. Me sinto no direito de discordar enquanto cristã, mas nunca desrespeitar”, afirma. Mário, por sua vez, diz que os projetos que tramitam no Senado e na Câmara dos Deputados para ampliar os direitos dos homossexuais precisam ser amplamente debatidos. “Discordar não é discriminar. A Bíblia prega o equilíbrio e também defendo isso”, pontua.

Mudança nas leis

Casamento Igualitário
Projeto de lei

O projeto de lei do Casamento Igualitário, de autoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), pretende alterar artigos da Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002, para reconhecer o casamento civil e a união estável entre pessoas do mesmo sexo. O projeto foi apresentado no dia 8 de abril deste ano e está na Comissão de Seguridade Social e Família. Ele ainda deve passar pela Comissão de Direitos Humanos, mas não é obrigado a passar pelo plenário

União estável 
Homossexuais

O projeto de lei, de autoria da senadora Marta Suplicy (PT-SP), propõe que a união estável entre homossexuais seja incluída no Código Civil, com a possibilidade de conversão em casamento. Para a união estável ser convertida em casamento, é preciso que o casal declare em cartório não ter impedimentos para casar. Também deve indicar o regime de bens que pretende adotar, como ocorre nos casamentos heterossexuais. O projeto foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos do Senado, mas ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça, pelo plenário e pela Câmara

Estatuto
Assinaturas

Proposta com um longo caminho pela frente, pois pretende criar o Estatuto da Diversidade Sexual por iniciativa popular. Antes de tudo, são necessárias mais de um milhão de assinaturas para que seja encaminhado ao Congresso. A proposta criminaliza a homofobia, reconhece o direito à livre orientação sexual e iguala os direitos fundamentais entre heterossexuais e LGBTs. Também estende o direito ao casamento civil, à adoção de filhos, à reprodução assistida por meio do Sistema Único de Saúde, à cirurgia de adequação do aparelho sexual, à identidade de gênero também pelo SUS, e à troca do nome em documentos e registros

Cura Gay
Tratamentos

O projeto de decreto legislativo 234/11, conhecido como projeto de Cura Gay é de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO). A proposta suspende a aplicação de dois dispositivos do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbe profissionais de usarem a mídia para reforçar preconceitos contra homossexuais ou propor tratamento para curá-los. O projeto de Campos recebeu parecer favorável do colega evangélico Roberto de Lucena (PV-SP), relator da matéria na Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF). Agora o projeto tramita na Comissão de Direitos Humanos, liderada por Marco Feliciano

Criminalização 

PLC 122 

O projeto de lei complementar 122/2006 modifica a Lei do Racismo para criminalizar também os atos de homofobia. É prevista a reclusão de um a três anos para quem tiver condutas discriminatórias, como recusar o atendimento a gays em bares e restaurantes. O projeto tem forte oposição da bancada evangélica, que teme perder o direito a liberdade de opinião. O projeto está em análise na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Se aprovado, deverá ser encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Pastores criticam projeto

O projeto de lei complementar 122/2006 que criminaliza os atos de homofobia tem acalorado as discussões no Senado. Na visão do movimento LGBT, a falta de leis aumenta os crimes de ódio contra gays e lésbicas. Mas os evangélicos temem censura e querem a inclusão no texto do projeto o direito a liberdade de opinião contrária, sem que isso seja caracterizado como homofobia.

“O projeto é inconstitucional e, se aprovado, pode gerar precedentes absurdos. Há causas maiores que devem ser discutidas pelos políticos como a superlotação de hospitais”, opina o pastor Simonton Araújo, da Igreja Missão Praia da Costa.

Outro argumento é que a constituição já garante a defesa de todos os cidadãos, não sendo necessária uma nova lei para assegurar os direitos dos homossexuais. “A Constituição deveria ser colocada em prática. Sou contra privilegiar esse ou aquele grupo. Que as leis sejam, então, para defender os direitos de todas as minorias”, diz o pastor Antônio Carlos Affonso. O projeto tramita na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Algumas alterações já foram feitas, mas o senador Paulo Paim promete apresentar um novo texto neste ano, mais amplo, definindo os crimes de ódio e de intolerância. 

Fonte: Gazeta Online e A Gazeta

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