"Sinto vergonha" diz ex-pastor, filho de um dos fundadores da Igreja Maranata


Hugo Gueiros Bernardes Filho: "Sinto vergonha do que vem acontecendo na Igreja Cristã Maranata"

Procurador da República e filho de um dos pastores fundadores da igreja em Brasília, ele deixou a instituição e defende a investigação.


Foto: Arquivo pessoal
Arquivo pessoal
Hugo Gueiros Bernardes Filho                      


Durante 35 anos ele foi membro atuante da Igreja Cristã Maranata. E não poderia ser diferente: seu pai foi um dos fundadores da instituição, assumindo, como pastor, o primeiro templo da igreja em Brasília. Mas, hoje, o procurador da República Hugo Gueiros Bernardes Filho, 53, admite: sente vergonha do que acontece na igreja que teve membros da sua cúpula presos – entre os quais, o presidente, Gedelti Gueiros – sob suspeita de irregularidades e desvio de dízimo.

“Como é que eu me permiti, com meu nível de conhecimento e um bom estágio de cultura, frequentar tanto tempo essa igreja, sem fazer um cálculo ainda que aproximado de quanto se arrecadava e quanto se gastava nela?”, pergunta Hugo Gueiros, que se desligou da ICM após ter solicitado explicações – e não ter obtido respostas – sobre denúncias que pesam sobre a gestão da instituição.

Vinte e seis pessoas e empresas são investigadas por sua participação em um suposto esquema de corrupção que desviou recursos provenientes do dízimo doado pelos fiéis da ICM. Há estimativa da própria igreja indicando que o rombo pode ultrapassar R$ 21 milhões.

Por quanto tempo sua família manteve-se ligada à Igreja Maranata?
A família Gueiros é de Pernambuco. Alguns foram para o Rio, outros para o Espírito Santo. Eu nasci em São Paulo – depois minha família foi para Brasília. A Maranata de Brasília começou na casa do meu pai, e eu entrei na igreja com 17, 18 anos. Meu pai foi um dos primeiros pastores da Igreja Maranata no DF.

Qual o grau de parentesco do seu pai com o pastor Gedelti?
Eles se conheceram na igreja. Nós nem sabíamos dos Gueiros de Vitória.

Qual sua participação como procurador e membro da igreja no processo de investigação da Maranata?
Como procurador, não tive nenhuma participação. Apenas como membro da igreja fiz ligações para pessoas da cúpula, que nada me esclareceram. Depois, fiz uma carta para o Presbitério, e outra para a minha família. Mas tudo em meu próprio nome.

Houve a informação de que o senhor teria feito ingerência.
Não sei onde ficam os ministérios públicos Estadual e Federal, e mal sei onde fica o presbitério da igreja, no Espírito Santo. Apenas elaborei uma carta e remeti ao presbitério, onde só existem perguntas. Antes mesmo de acontecer o maior escândalo, já me preocupava com as assembleias da igreja. Minha carta é datada de antes de eu sair da igreja, acho que fevereiro do ano passado. Um dia, o pastor Gedelti veio a Brasília, e pedi que fossem chamados todos os 30 pastores, porque eu queria falar na frente deles, fazer perguntas e obter respostas. Mas fiquei sabendo que ele não chamaria os pastores, e então nem fui. São louváveis as iniciativas do Ministério Público do Espírito Santo, mas sou membro do Ministério Público Federal. Não tenho ingerência alguma sobre isso. É evidente, porém, que, se tiver um indício sólido de delito, que ainda não tenha passado pelas investigações, não hesitarei em dar ciência ao Ministério Público do Espírito Santo, ou ao Federal. Não pretendo ser lembrado como alguém que participou dessa acusação, pois ela envolve algumas pessoas que conheci bem, inclusive um familiar, embora distante. Mas, de outro lado, meu dever funcional é concorrer para a busca da verdade, não para ocultá-la. A Bíblia fala: ‘Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’ – preceito, aliás, cuja observância o noticiário sobre a Maranata não atesta.

Quando o senhor se afastou da igreja?
Aproximadamente em março de 2012, quando vários pastores de Brasília também se afastaram.

Chegou a vir a Vitória buscar informação sobre o processo com autoridades por solicitação de membros da igreja?
Na última viagem que fiz a Vitória, várias pessoas, que já tinham conhecimento da carta que enviei ao presbitério, com perguntas que não foram respondidas, me procuraram no hotel e me deram informações. Inclusive pastores da igreja. Eram várias, insatisfeitas. Mas não tive contato com promotores que, na minha opinião, estão fazendo um belo trabalho – eu me solidarizo com eles, assim como me solidarizo com a imprensa. Até evito ler, porque prefiro esquecer desse problema que afetou tanto a minha família. Vejo que A GAZETA tem sido muito criticada, mas não há razão para vocês deixarem de informar.

Buscou outra igreja? Algumas pessoas que deixaram a Maranata criaram outras denominações religiosas.
Minha família estava com uma casa vazia, aqui em Brasília, e a emprestamos para pessoas que haviam saído da Maranata. Elas fundaram uma nova igreja – e eu até ajudei na elaboração do estatuto. Mas já saíram da casa, e foram para outro local. Não as acompanhei. Estou me reunindo com outro grupo, em minha própria residência.

Como ex-membro da igreja e com o nível de informação que o senhor tem, como vê o que acontece na Maranata?
Confesso: fico envergonhado. Realmente, pude ser bem educado, tive todas as condições de passar num vestibular de Direito na universidade federal, fazer pós-graduação, me tornar um procurador da República, já me dirigindo para o fim da carreira... Mas, às vezes, me pergunto: como é que me permiti, com meu nível de conhecimento e um bom estágio de cultura, frequentar tanto tempo sem fazer um cálculo ainda que aproximado de quanto se arrecadava e quanto se gastava nessa igreja? Meu pai achava que o dinheiro era bem empregado – isso acaba passando de geração para geração... Mas e as pessoas que não têm cultura? Elas tendem a seguir tudo o que lhes é dito pelos que comandam a igreja. A força da cúpula, a sua influência, é muito grande. Olha, sei de muita gente que pretende deixar a Maranata, mas não tem nenhum amigo fora dela. É uma questão mais do que religiosa, é social.

O senhor tem a sensação de ter sido traído?
Quando menos pela falta de informação. Nem entro na questão de desvio de dinheiro. Acho que merecia, como filho de um dos pastores fundadores em Brasília – e por todo o passado da minha família –, mais esclarecimentos e alguma solidariedade quando praticamente fui obrigado a sair da igreja. Hoje, sou uma pessoa preocupada com o que vai acontecer com os que saírem da ICM. E penso em dar suporte para as igrejas que estão sendo formadas. Acho excelente que exista esse movimento. Não sei se as pessoas sabem, mas lá, nós, membros, trabalhávamos. Em quase tudo o que se faz na igreja, no acampamento, no Maanaim, não há contratação de pessoas de fora. Então, a gente se pergunta: para que servia o nosso dízimo? A minha família – eu, meu pai, meus irmãos – doou milhões à Igreja Maranata.

Até que ponto o caso da Maranata pode servir de lição para os cidadãos? Que cuidados as pessoas devem ter na relação com uma igreja?
Caminhamos para os 500 anos do movimento protestante. Eu penso em formar uma entidade para um novo protestantismo. Um protesto contra a forma com a qual se conduzem muitas igrejas evangélicas. Mas, apesar de todo o meu trauma, luto pela preservação da liberdade de culto. Neste momento de revolta, a primeira coisa que pensamos é: ‘Ah, o poder público deveria intervir, para mostrar que as pessoas estão sendo enganadas’. Nós precisamos é informar aos crentes, à comunidade, à congregação. É preciso que haja um movimento para mostrar o que é bíblico. Nos Estados Unidos, que estão à nossa frente, já surgem manuais revelando os indícios de uma igreja que quer se tornar sectária e que tende a ter donos. A verdadeira igreja não tem dono. Por que a justiça foi obrigada a nomear um interventor na Maranata? Porque a igreja não tem mecanismos internos para trocar a sua cúpula.

O primeiro, indicado por ela, acabou preso...
É, a própria cúpula foi quem fez a indicação. Olha, o chamado presbitério tem que ter representatividade. Tem que haver renovação. O período no qual a pessoa exerce a função de presidente tem que ser temporário.

Na Maranata havia “eternos” no comando.
É a impressão que sempre tive. Embora tenha até morado com um dos antigos presidentes, pastor Edward Dodd. Fiquei uns meses na casa dele, no Rio de Janeiro. É um homem a quem devo muito – a ele e à mulher dele, Sara, irmã de Gedelti.

O que o senhor espera?
Vou tocar minha vida, lamentando um pouco o que perdi. Como cristão, o que posso fazer é lutar para que a fé seja preservada. Prefiro não olhar para trás, porque isso nos faz muito mal. Mas, agora, não quero ofender ninguém, brigar... Agora só tenho uma missão: informar as pessoas. Eu entendo que igreja não tem que ter superávit. Dízimo deve ser para pregação do evangelho. O ideal é que a igreja regule a sua receita com a despesa necessária. Fiéis têm que estar atentos.

Fonte: A Gazeta

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